Pobre de quem teve medo de correr os riscos, porque talvez não se
decepcione, nem tenha desilusões, nem sofra como aqueles que têm um sonho a
seguir. Mas quando olhar para trás – porque sempre olhamos para trás – vai
escutar seu coração dizendo: “o que fizeste com os milagres que Deus semeou por
teus dias? O que fizeste com os talentos que teu Mestre te confiou? Enterraste
fundo em uma cova, porque tinhas medo de perdê-los. Então, esta é a tua herança
– a certeza de que desperdiçaste tua vida”. Pobre de quem escuta estas
palavras, porque então acreditará em milagres, mas os instantes mágicos da vida
já terão passado[1].
Precisamos ter cuidado, é verdade. Afinal “cautela e
canja da galinha não fazem mal a ninguém”, já diz o ditado. Mas quem disse que
não devemos ousar? Por que o medo de tentar? Vamos falhar? E daí? Quem nunca
falhou? Quantos acertam na primeira tentativa? O que mais queremos perguntar?
Para quais perguntas teremos respostas? Se soubéssemos tudo, as dúvidas não
fariam parte de nossas vidas, o dia seguinte seria por demais conhecido, mas
completamente sem sentido algum.
Os instantes mágicos:
Todos os dias Deus nos dá – junto com o sol – um momento em que é
possível mudar tudo o que nos deixa infelizes. Todos os dias procuramos fingir
que não percebemos este momento, que ele não existe, que hoje é igual a ontem e
será igual a amanhã. Mas quem presta atenção ao seu dia, descobre o instante
mágico. Ele pode estar escondido na hora em que enfiamos a chave na porta pela
manhã, no instante de silêncio logo após o jantar, nas mil e uma coisas que nos
parecem iguais. Este momento existe – um momento em que toda a força das
estrelas passa por nós, e nos permite fazer milagres1.
Já perceberam o quanto reclamamos da vida, sem
sequer nos darmos conta do quanto recebemos dela? Na maioria das vezes, basta
um respirar diferente, um olhar diferente, um pensar diferente, um desejar
diferente – e tudo volta a ter cor, a brilhar. Os instantes mágicos existem,
sim, e devem ser sempre a nossa fonte na busca por dias melhores, mais justos. É
o que tenho perseguido. Sobretudo ser justa, ser melhor a cada dia, enquanto
pessoa, para poder ofertar o melhor de mim a outras pessoas. Luta árdua... mas
vale a pena.
A Felicidade:
A felicidade às vezes é uma bênção – mas geralmente é uma conquista. O
instante mágico do dia nos ajuda a mudar, nos faz ir em busca de nossos sonhos.
Vamos sofrer, vamos ter momentos difíceis, vamos enfrentar muitas desilusões –
mas tudo é passageiro, e não deixa marcas. E, no futuro, podemos olhar para
trás com orgulho e fé1.
Aproveitemos, então, este momento em que se comemora a Páscoa e façamos as nossas descobertas de felicidade. Não é necessário muito. Bastam alguns gestos simples: sorrir e agradecer ao acordar, reverenciar o dia, se embriagar com o perfume do alvorecer, olhar o outro com os olhos da alma, falar a linguagem do coração, renovar a fé, renascer espiritualmente, fazer ressurgir os sonhos. Nós podemos tudo. Basta que façamos como Ele nos ensinou: "amar ao outro como a nós mesmos". A recompensa maior é nossa, o presente maior ganharemos nós, a nossa luz interior brilhará com mais intensidade, tenham certeza. Afastaremos de nós toda a sorte de tristeza, pesar, agonia e descrença. É preciso apenas acreditar. Precisamos todos acreditar... Eu também preciso.
Eu me perdi em ti desde a primeira
vez em que te vi...
(Foto: Art of Woman)
Uma
curva, uma esquina, um esbarrão naquele moço que não me deixava passar. O moço
de chapéu azul. Um olhar penetrante, assustador. Foi difícil continuar os
passos. A impressão ficou durante todo o dia, e com ela os porquês. Eu não pude
me distanciar dele sem olhá-lo até perder de vista. Um susto. Uma estranha
sensação. Quem era ele? De onde vinha? Por que nunca o vira antes? Por que não
saía do meu pensamento? Por que queria vê-lo de novo? Por que tantos porquês?
Passado o impacto, a vida seguia o seu curso. Será? Não. A minha vida nunca
mais fora a mesma desde aquele dia...
A
tarde chegara. Hora de ir à escola. Nesse instante, a seriedade fazia morada.
Nada de estripulias. Era uma menina comportada. Outra vez o moço que vira
naquela manhã. Só mudara de boné. Meu corpo inteiro tremeu. Que sensação era
aquela, meu Deus? Por que parecia tão importante que ele estivesse ali? Por que
o medo de olhar para ele? Ao mesmo tempo, por que não conseguia deixar de
olhá-lo? A inocência não dava espaço às respostas. Outra vez o seu olhar,
maravilhoso olhar... A ingenuidade não permitia a leitura dos olhos, não se
fazia compreensível. Mas era exatamente aquele olhar que alegrava minh’alma.
No
dia seguinte... Uma caminhada em uma rua movimentada, carros indo e vindo sem
parar, a travessia exigia cuidado. Outra vez, aquele moço... Nova troca de
olhares, um arrepio na espinha, um medo não sei de quê. Eu, a menina inocente,
de olhar tímido, mas de passos serelepes, jeito moleque, sorriso matreiro,
totalmente paralisada. Tu, um adolescente, te descobrindo homem, divertindo-te
com teus amigos em um jogo de bilhar, interrompendo a partida para apreciar o
caminhar daquela menina espevitada. Outra vez nos olhamos até que a distância
afastasse de nós o que a pupila podia alcançar. Sem que eu soubesse, estava
traçado ali o destino do meu coração... Sem querer, sem saber, entregava a ti o
mais puro dos sentimentos, passava às tuas mãos a minha vida.
E
dali por diante deu-se a constância dos encontros... hoje tão raros. Nenhuma
palavra era trocada. Os nossos olhos falavam por nós. A frequência dos encontros
alcançou novos espaços: a padaria, passeios por outras ruas, as festas do
bairro, em casa de conhecidos. Nenhuma palavra dirigida, apenas aquele olhar,
que tanto me fascinava e, ao mesmo tempo, me amedrontava. Não conseguia saber
de fato o que sentia, mas se passasse um dia sequer sem vê-lo, batia-me uma
tristeza que parecia não ter fim. E o procurava infinitamente por todos os
lados. Um belo dia, nos demos a falar. O medo, então, cresceu infinitamente: o
que dizer? Não importava: os nossos olhos falavam por nós. Sempre falaram...
Seguimos
assim por vários anos: encontros, cumprimentos, trocas de olhares. Meu coração
foi aos poucos compreendendo a dimensão do que eu sentia e descobrindo a cada
dia o que era o amor. A chuva, uma leve garoa, foi a responsável por unir os
nossos olhos em direção aos nossos lábios, e eu terminei por me perder
definitivamente.
O
beijo... Às vezes um gesto tão simples, mas capaz de provocar sensações
infinitas. Por vezes angelical, outras vezes voraz. Às vezes esperado por anos
e, de repente, surpreendente, inesquecível... Sinto a falta do teu beijo, à
medida que tenho sede. E cada vez que o tenho em mim, nos nossos raros, loucos,
mas intensos encontros, é como se fora o mesmo daquela tarde de garoa...
A
inocência dos 11 anos não permitia sentimentos senão os de medo, curiosidade,
alegria em vê-lo... Até que um dia a flor se percebe madura, e sente a
necessidade de abrir-se. Assim nasceu meu desejo. Nem lembro como, mas em meio
a todos os outros sentimentos, nasceu um calor dentro de mim, uma vontade intensa
de querer aquele corpo colado ao meu. Eu o desejava intensamente, meu corpo
flamejava a cada toque de suas mãos. Mas ainda havia o medo... E o tempo ainda
atuou sobremaneira até a entrega total.
E
o amor se fez, tal qual nossos mistérios, tal qual a nossa curiosa história... Demo-nos
um ao outro, sem planos, sem hora marcada. Era início da primavera, estação
mais propícia, não teria. Vivemos o acaso, festejamos o milagre da entrega.
E
desde aquele dia, por mais que o meu corpo por ventura caia em outros braços,
ele será eternamente teu. É para ti, por ti, o meu desejo; o meu cansaço em
busca do teu colo; o meu sono em busca do sonho; a minha escuridão em busca do
brilho dos teus olhos, a minha boca à procura da tua, a minha vida inteira
atrelada a ti. Viverei por te amar, sempre, mesmo que não tenha a ti, mesmo que
vivamos eternamente envoltos em fortuitos encontros, mesmo que estejamos
ladeados por outros quereres. A nossa história teve um começo, foi permeada por
muitos meios, mas jamais terá escrita em sua página um “fim”. Amo-te tanto e
sempre, corpo, alma e coração.
...quando as minhas verdades se confundem com os meus delírios
Sabe... quando você sente, de verdade, que não haverá
jamais outra pessoa a ocupar espaço em seu coração, que mesmo que o mundo gire,
outras pessoas venham, outras histórias sejam contadas, ela continua lá, por
vezes esquecida, mas jamais apagada?
Sabe... quando você sabe que é amor, e sente que
este amor também a tem como inesquecível, guardada, jamais desamada e você sabe
que, ainda assim, você não pode ser a sua escolha?
Sabe... quando tudo o que você quer é estar perto
desta pessoa, colocá-la no colo, ouvir seus lamentos, suas agonias, rir com sua
risada, com suas manias, partilhar as suas alegrias e nem sempre você pode se fazer presente?
Sabe... quando você tem a certeza de que jamais
construirá uma história de verdade e mesmo assim, você continua à janela,
esperando por este amor a cada amanhecer, com o peito explodindo de saudade,
com o corpo em brasas, reclamando sua pele?
Sabe... quando você percebe que os seus sonhos
jamais serão realizados, mas que nada nem ninguém fará você recuar e
desacreditar?
Sabe... quando você acorda, escorrega suas mãos pela
cama e tudo que você queria era aquele abraço apertado, aquele “bom dia” ao pé
do ouvido, e você percebe que lençóis e travesseiros não têm braços, não podem
falar com você, muito menos ouvi-la?
Sabe... quando seu coração sorri desatinado ao
sentir seu olhar reciprocado, seus lábios em outros encontrados, seu corpo
amorosamente tocado, sua sede momentaneamente saciada e você sabe que isto é
tudo o que você pode ter... por instantes... por momentos... e ainda assim você
se sente a pessoa mais feliz do mundo?
Sabe... em sua certeza, o amor é eterno, é para
sempre. A espera também. O reencontro também. O coração agoniado também. O sorriso
a cada chegada também. O desejo acalentado também... Sabe... em suas
verdades... o sonho também.